Toda cidade tem histórias. Enquanto algumas estão escritas nos livros de literatura, outras permanecem gravadas nos muros, nas ruas e nos bairros espalhados pela cidade.







Todo esse movimento de experiência coletiva também revela um dilema. Onde termina o patrimônio de uma cidade, marcada pela preservação do memorial, e quando começa a intervenção? Quem define o que pode permanecer na paisagem urbana? O que alguns percebem como desordem, ou até mesmo um crime, outros reconhecem como uma forma de identidade, resistência e manifestação cultural.


Por este motivo, tendo como intenção um trabalho de salvaguarda do patrimônio imagético e cultural, alunos da disciplina de Direção de Fotografia, do curso Comunicação Social – Rádio e TV, da Universidade Federal do Maranhão, propuseram intervenções fotográficas para a arte urbana espalhada por São Luís, especialmente nas ruas Isaac Martins de Barrocas, Graça Aranha e na Praça do Reggae, no Centro Histórico da capital. Arte das Ruas propõe outra forma de cuidado com o espaço coletivo ou com as “reivindicações de presença”, buscando distinção para o que, em muitas ocasiões, pode passar despercebido. A iniciativa evidencia a relevância dessas manifestações para a construção da memória visual da cidade, além disso, por meio da fotografia, as obras urbanas são deslocadas do fluxo do cotidiano urbano e passam a ser observadas com maior atenção, ampliando a percepção e o acesso a essas manifestações artísticas, reconhecendo sua importância como registros da identidade, das narrativas e das transformações que atravessam os muros da cidade.


Este ensaio fotográfico convida você a contemplar os olhares da fotografia para as manifestações culturais da arte urbana, como parte da construção simbólica da nossa cidade. Os muros deixam de ser apenas superfícies, as escadarias e as ruas, simplesmente, espaços de passagem, tornando-se ambientes de contemplação cultural, isto é, páginas nas quais diferentes sujeitos registram suas memórias, seus afetos, suas denúncias e seus sonhos. Os artistas do graffiti fazem suas intervenções em cores, formas, materiais ou múltiplas linguagens; os da fotografia compõem através do recorte e da interação com elementos externos, molduras, angulações ou texturas. Nesse encontro, uma intervenção não substitui a outra, mas a prolonga, produzindo um diálogo que amplia as possibilidades de leitura da obra desses artistas.


Assim, a cidade ludovicense deixa de ser apenas um cenário comum no cotidiano para tornar-se protagonista de narrativas individuais e coletivas, construídas a partir das vivências nos bairros periféricos.


Juarez Dayrell afirma, no seu livro A música entra em Cena: o Rap e o Funk na socialização da juventude, que o graffiti surgiu na década de 70, a partir das tags, assinaturas inscritas pelos jovens com sprays nos muros, trens e estações de metrôs de Nova Yorque. Mais tarde incorporou letras especiais, desenhos e símbolos, criando uma estética própria, definindo-se como “arte das ruas” (Dayrell, 2005, p.47). Desde então, o graffiti passou por um processo de transformação e expansão, deixando de ser visto apenas como uma forma de marcação territorial ou manifestação marginal para se consolidar como uma importante expressão artística e cultural. Por meio de cores, formas e narrativas visuais, os artistas utilizam o espaço urbano para comunicar ideias, questionar problemas sociais, expressar identidades e promover reflexões sobre a realidade vivida nas cidades. Assim, o graffiti estabelece um diálogo direto com a população, democratizando o acesso à arte e ressignificando os espaços públicos.




Mais do que observar pinturas, rabiscos, lambes-lambes e graffitis, o visitante é convidado a percorrer uma cidade que fala por meio de suas cores, símbolos e silêncios, reconhecendo que cada intervenção modifica não apenas um muro ou uma paisagem, mas também a maneira como percebemos o espaço urbano.


Assim, passamos a compreender que toda cidade é escrita e desenhada por quem a vive.

RONALD CARDOSO “RISCO”
Entre essas histórias inscritas na paisagem urbana estão também as produções de artistas que encontram no graffiti uma forma de expressão, pertencimento e transformação do território. É nesse contexto que se insere Ronald Cardoso “Risco”, artista visual, grafiteiro, ilustrador e arte-educador, nascido e criado na periferia de São Luís. Graduando em Artes Visuais pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Risco encontrou no desenho e, posteriormente, no graffiti, importantes meios de expressão artística e transformação social.Sua produção parte das vivências da periferia e das relações entre identidade, cultura, território e memória. Inserido na cultura Hip Hop, desenvolve intervenções urbanas, murais, oficinas e projetos educativos que aproximam arte e território, utilizando o graffiti como linguagem de diálogo, resistência e construção de pertencimento.As imagens a seguir apresentam parte de sua produção artística, registrada pelo próprio artista.








Alguns espaços públicos têm se consolidado como importantes cenários da arte urbana maranhense, reunindo obras de artistas, tais como, Leo Stella, Origes, Carlos Over, Nia, Carchíris, João Urubatan, entre outros. De acordo com o Blog Buliçoso, por meio da Ocupação Barroca SLZ – Festival Multilinguagens de Arte Urbana e Cultura de Rua, o Centro Histórico recebe anualmente intervenções de dezenas de artistas do Maranhão, de diferentes estados brasileiros e de outros países, com ações que incluem graffitis, lambe-lambes, performances e manifestações culturais, reafirmando o espaço como um território de criação artística e valorização do patrimônio cultural. No documentário Ocupação Barroca SLZ: transformando através da arte urbana (2025. Dir. João Almeida e Cláudia Marreiros), João Almeida vê a ocupação artística do espaço urbano como um momento de acolhimento e resistência. Para o grupo, muitas vezes, a arte das ruas desafia a própria noção de que o patrimônio cultural significa apenas um conjunto de monumentos fixos e imutáveis.

Assim, São Luís revela, em suas paredes, viadutos, becos e fachadas, uma paisagem construída por diferentes vozes. Entre o concreto e a tinta, a Arte Urbana transforma a cidade em um espaço vivo de expressão, memória e de pertencimento. José Manuel Valenzuela Arce, em seu livro Vida de barro duro: cultura popular juvenil e graffiti, afirma que cada graffiti é mais do que uma imagem ou rabisco, é um gesto que reivindica presença, ocupa o espaço cultural e propõe novos modos de olhar para aquilo que nos cerca. O graffiti remete a novos usos dos espaços públicos que se desenvolveram com a urbanização; envolve uma disputa simbólica pela definição da cara dos espaços e sua conotação legal ou ilegal frequentemente deriva apenas do grupo que o realiza.

| Coordenadoria da Exposição | Patrícia Azambuja |
| Curadoria | Ranaisy Santos, Dayvid Washington e Patrícia Azambuja |
| Texto de apresentação | Dayvid Washington e Ranaisy Santos |
| Legendas | Ranaisy Santos e Ronald Cardoso |
| Revisão | Patrícia Azambuja e Ronald Cardoso |
| Tratamento de Imagens | Ranaisy Santos e Patrícia Azambuja |
| Web Designer | Ranaisy Santos |
| Agradecimentos | Ronald Cardoso e Ocupação Barroca |